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Visuality and Visualization LabSchool of Fine ArtsFederal University of Rio de Janeiro

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O mapa depois de Mercator

Por que o tamanho de um continente no mapa nunca foi só uma questão de geometria

September 10th, 2026

Em 4 de setembro de 2026, a Assembleia Geral das Nações Unidas votou para abandonar o uso da projeção de Mercator como padrão de representação cartográfica, substituindo-a pela projeção Equal Earth. A decisão formaliza, em escala institucional, uma discussão que atravessa décadas de cartografia crítica e que ressoa diretamente com o campo da visualização de dados: toda escolha de representação carrega consequências políticas e perceptivas, e corrigir uma distorção geométrica não equivale a neutralizar seus efeitos cognitivos.

Mercator e a naturalização da distorção

Criada em 1569 pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator para facilitar a navegação por bússola, a projeção que leva seu nome tornou-se referência a partir do século XVIII, com a expansão marítima europeia, e se consolidou como padrão em governos, salas de aula e, mais recentemente, em serviços como Google Maps e MapQuest. Seu efeito mais discutido é o aumento progressivo de área em direção aos polos, onde estão cerca de 70% das massas de terra: países como Canadá e Rússia aparecem muito maiores do que são, e a Groenlândia parece ter tamanho comparável ao da África — que é cerca de 14 vezes maior.

Para o geógrafo Derek Alderman (University of Tennessee), mapas funcionam como textos sociais: além de localizar lugares, eles comunicam noções de centralidade, importância e posição periférica. É essa conflação entre tamanho e relevância que pesquisadores apontam como o principal dano simbólico da projeção. O cartógrafo Bernhard Jenny (Monash University), coautor da projeção Equal Earth, cita um estudo de 2009 (Battersby, Cartographica) segundo o qual leitores de mapas não compensam mentalmente as distorções mesmo quando sabem que elas existem — um achado que interessa diretamente a quem pesquisa leitura crítica de visualizações.

Comparação entre as projeções de Mercator e Equal Earth, evidenciando como a primeira amplia as áreas próximas aos polos e a segunda preserva o tamanho relativo dos continentes (Nature, 2026)

Equal Earth e os limites da correção

A resolução foi proposta pelo Togo, com apoio da União Africana e de parte da comunidade de pesquisa em geografia, que argumentam que a redução visual do continente africano afeta sua percepção na mídia, na educação e nas políticas públicas. Desenvolvida em 2018 por Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny, a Equal Earth preserva o tamanho relativo das massas de terra ao curvar os meridianos — um ganho de precisão de área que tem custo em outros aspectos: a Nova Zelândia, por exemplo, aparece esticada na diagonal e deslocada para a borda do mapa.

Seis países se abstiveram na votação e apenas um, os Estados Unidos, votou contra, classificando a resolução como um deboche ao propósito da ONU. Na mesma semana, depois que o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva renomeando o Lago Ontário como "Lake America", Google Maps e Apple Maps aplicaram a mudança para usuários nos Estados Unidos — episódio que evidencia, por outro ângulo, que a representação cartográfica segue sendo terreno de disputa política direta, independentemente da projeção escolhida.

O que fica para a visualização de dados

A votação da ONU desloca para a esfera institucional um argumento que a cartografia crítica e a visualização decolonial sustentam há tempo: a neutralidade de uma peça visual é sempre relativa às escolhas de projeção, escala e recorte que a produzem. Mas ela também expõe o limite dessas correções. Trocar uma distorção por outra não resolve o problema de fundo, já que toda projeção de uma esfera em um plano implica compromissos inevitáveis entre forma, área, distância e direção. O achado citado por Jenny — de que leitores não ajustam sua percepção mesmo cientes da distorção — é um lembrete de que a alfabetização visual não se resolve trocando apenas o objeto exibido: exige educar o olhar para reconhecer que toda representação é uma construção.

A reportagem completa, assinada por Dhruv Shenai na Nature, traz mais detalhes sobre a votação e suas repercussões. Quem quiser experimentar a projeção Equal Earth encontra ferramentas e visualizações interativas no site oficial do projeto Equal-earth.com, criado por Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny.

[Dhruv Shenai](https://www.nature.com/search?author=Dhruv+Shenai) [Nature](https://www.nature.com/articles/d41586-026-02820-x) [site oficial do projeto](https://equal-earth.com)
Doris Kosminsky

Doris Kosminsky é Professora Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com atuação no Curso de Comunicação Visual Design da Escola de Belas Artes e nos Programas de Pós-Graduação em Artes Visuais (PPGAV Linha Poéticas Interdisciplinares) e em Design (PPGD Linha Imagem, Tecnologia e Projeto). Pesquisadora de destaque nos campos do Design e das Artes Visuais, investiga as dimensões sensíveis e técnicas da visualização de dados. Coordenadora do Laboratório da Visualidade e Visualização (LabVis) desde 2010, sua trajetória é pautada pela excelência acadêmica, sendo Cientista do Nosso Estado (FAPERJ, 2021-2026) e bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq. É doutora em Design pela PUC-Rio com Menção Honrosa no Prêmio Capes de Tese e pós-doutora pela University of Calgary (Canadá). CV no lattes: http://lattes.cnpq.br/4801768397535572.